“Come back. Come back to me.”
À primeira vista, Expiação (Atonement, em inglês) parece ser um daqueles filmes de guerra românticos, onde o amor vence todos os obstáculos. Mas não é. Tem algumas características que nos podiam levar a classificá-lo de tal forma, mas Expiação é algo mais do que isso: é um filme sobre o ciúme e a inveja e as consequências dos nossos actos quando nos deixamos levar pela vingança. Esta é a história do filme. A história de Briony e os modos com que ela vai tentar expiar os seus pecados depois de ter destruído a vida da irmã Cecilia e do filho dos empregados Robbie. A história de uma criança que vai passar uma vida inteira carregando a culpa de ter acusado um homem de um crime que não cometeu.

Isto é Expiação. Uma espécie de filho rebelde de O Paciente Inglês e Cold Mountain. E digo filho rebelde porque enquanto que nos outros o amor é o grande protagonista, aqui, e como já foi referido, o ciúme e o sentimento de culpa são os fios condutores à história, em partes distintas da película, que nos deixa presos ao ecrã, mesmo que cheguemos à conclusão de que algumas cenas poderiam ir mais além. O próprio filme poderia ir mais além. E esse acaba por ser o grande calcanhar de Aquiles do filme de Joe Wright (que nunca desilude atrás das câmeras). Apesar de ser uma inovação no seu género, parece que a película sente receio de abordar algumas cenas de maneira mais detalhada e profunda, deixando algumas subtramas um pouco mal exploradas. Isto já para não falar de que o final nos chega de uma forma um tanto precipitada, talvez pela própria duração do filme, que acaba por ser pouca para se contar a história. Culpa, talvez, da adaptação do nosso conterrâneo Christopher Hampton, cujo guião poderia ser (ainda) melhor.
Todavia, isto não faz de Expiação um mau filme. Não é uma obra-prima, e dos 7 Óscares para que está nomeado, deverá ter sorte em algumas categorias técnicas (seria muito estranho ver o filme levar o prémio máximo, dada a concorrência), mas também não é um mau filme: é interessante, com alguns aspectos tremendamente geniais. Para além disso, o elenco não desilude. James MacAvoy provou ser um actor competente, à altura do que lhe era pedido. Keira Knightley (
) para além de linda é talentosíssima. Ah, e também é linda. O papel de Cecilia assente-lhe que nem uma luva, e o único defeito que se pode colocar à presença da actriz no filme foi a promoção do mesmo: Cecilia não é a personagem feminina principal. Briony é. O filme é inteiramente sobre ela, mostrando-nos, de tempos a tempos, os pontos de vista de Robbie e Cecilia. Romola Garai e Vanessa Redgrave conseguem uma interpretação de luxo na pele de Briony em diferentes fases da sua vida, mas acaba por ser a jovem de nome complicado Saiorse Ronan (a sério, alguém, que me diga como é que se lê o primeiro nome da rapariga) que merece distinção, tal não é a complexidade com que abraça a personagem e os seus conflitos morais. Nomeada como Actriz Secundária, Ronan não deverá ter sorte em sagrar-se vencedora, mas é uma das revelações do filme.

Um filme com uma edição espantosa (estou ainda a tentar perceber porque é que falhou esta nomeação) que, embora não tenha o necessário para ser aclamado de filme do ano, será relembrado como um filme ”lindo” (como se já não bastasse ter lá a Keira, é um regalo para a vista, tecnicamente) que poderia ser chamado de filmaço se tivesse tido a coragem de dar o próximo passo.

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