Estado de Graça*
A Primavera está aí, tecnicamente. Esta é a minha altura favorita do ano, não sei bem porquê, e um dos filmes que, desde que o vi, me faz lembrar esta estação é o Garden State. Talvez pelo título, talvez pela própria história de redescoberta e novos inícios, esta verdadeira pérola do cinema indie é uma boa fita para ser vista nos meses que seguem. Quanto mais não seja pela excelente banda sonora e pelo Zach Braff e pela Natalie Portman, especialmente ela
: foi este filme que me fez perceber que sou mesmo fã dos dois.
(*Tentativa falhada de traduzir o título do filme para português?)
“Thank God for teen pregnancy!”
E pronto. Para o ano há mais. Com muitas confirmações e algumas surpresas, os Óscares lá fizeram 80 anos com uma gala que pecou pela falta de espectáculo, apesar de Jon Stewart estar à altura do acontecimento. Nesse nível, foi uma noite muito banal, fazendo-me concordar com o que o Mário Augusto acabou de dizer na SIC, apesar de achar que o cinéfilo de Carnaxide disse umas coisas dignas de quem passou uma noite inteira sem dormir e bebeu uns copos a mais… Mas atenção: isto sou eu que nada percebo sobre o mundo do cinema!

And the Oscar goes to…
A noite esperada por todos aqueles que gostam de seguir estes acontecimentos (e não só) chegou. Os membros da Academia votaram, as estrelas e os fãs preparam-se e os vencedores irão começar a ser revelados dentro de pouco mais de duas horas. Está, então, na altura de se fazer apostas finais. A seguir, fica a lista dos vencedores que eu acredito que vão ganhar e, em parêntesis, as minhas apostas pessoais (que poderiam facilmente ser outras se eu tivesse visto todos os filmes nomeados ou se algumas nomeações tivessem sido mais acertadas). Preparados para a longa noite que se avizinha e para passar o dia de amanhã com poucas horas de sono dormidas?
- MELHOR FILME: “No Country for Old Men” (”Juno”)
- MELHOR ACTOR: Daniel Day-Lewis (George Clooney)
- MELHOR ACTRIZ: Julie Christie (Ellen Page)
- MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO: Javier Bardem (Tom Wilkinson)
- MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA: Cate Blanchett (Tilda Swinton)
- MELHOR REALIZAÇÃO: Ethan e Joel Coen (Ethan e Joel Coen)
- MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL: “Juno” (”Juno”)
- MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO: “No Country for Old Men” (”No Country for Old Men”)
- MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL: “Atonement” (”Atonement”)
- MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Once”- Falling Slowly (”Once”- Falling Slowly)
- MELHOR CINEMATOGRAFIA: “The Diving Bell and the Butterfly” (”Atonement”)
- MELHOR DIRECÇÃO DE ARTE: “Sweeny Todd” (”Atonement”)
- MELHOR GUARDA-ROUPA: “Elizabeth: The Golden Age” (”Atonement”)
- MELHOR MISTURA DE SOM: “Transformers” (”Transformers”)
- MELHOR MONTAGEM: “No Country for Old Men” (”Into the Wild”)
- MELHOR EDIÇÃO DE SOM: “Transformers” (”Transformers”)
- MELHORES EFEITOS ESPECIAIS: “Transformers” (”Transformers”)
- MELHOR CARACTERIZAÇÃO: “Piratas das Caraíbas nos Confins do Mundo” (”Piratas das Caraíbas nos Confins do Mundo”)
- MELHOR FILME ANIMADO: “Ratatouille” (”Ratatouille”)
“Crappy Shenanigans” Happen
Sabem aqueles filmes surpreendentes que, por mais que queiram, não vos saem da cabeça depois de algum tempo de os terem visto? Sim? Pois este é um deles.
Juno MacGuff (Ellen Page) é uma jovem de 16 anos sui generis, que ainda anda a tentar perceber quem é e para onde vai. Mas a sua vida promete mudar quando descobre que está grávida do seu bom amigo Paulie Bleeker (Michael Cera). A jovem decide entregar a criança para adopção, chegando, assim, ao casal Vanessa e Mark (Jennifer Garner e Jason Bateman, respectivamente). Basicamente, isto é Juno. Dizer algo mais seria considerado spoiler, até porque o filme tem apenas hora e meia de duração. A única coisa que posso dizer é que Juno é uma história de amor.

Sim, leram bem: uma história de amor. Mas uma história de amor completamente disfuncional e anormal, estando de acordo com a normalidade dos dois protagonistas anormais. Juno e Bleeker estão longe de ser aquilo que se pensa em protagonistas de histórias de amor em filmes. Conseguimos identificá-los como sendo outsiders da vida, mas que não são muito diferentes, na teoria, daqueles que os rodeia.

Para além dessa história de amor, Juno trata a gravidez na adolescência de uma maneira bastante divertidade, para além de nos mostrar que um dos maiores medos do ser humano é o medo de crescer: quer seja uma rapariga de 16 anos ou um homem de 30, todos nós temos receio em crescer, de nos desenvolver enquanto indivíduos, de darmos o próximo passado, temos medo do desconhecido. E o argumento delicioso de Diablo Cody (que TEM de ganhar o Óscar) aborda todos estes assuntos, misturando comédia inteligente com um drama real envolvente, resultando nesta fascinante história.
Para além da história, a beleza de Juno reisde em outros três factores: a banda sonora, Jason Reitman e Ellen Page. Reunindo músicas indies simplesmente colossais, a escolha musical consegue captar na perfeição os estados das personagens e da própria trama, contribuindo para o sorrisinho no rosto que se forma durante e após a visualização de Juno. Reitman tem alguns planos extremamente bem conseguidos, geniais, diria eu, provando que a sua nomeação é justíssima (mas não suficiente para a vitória). Mas o ponto mais positivo do filme é mesmo Ellen Page. A actriz não representa Juno; ela é Juno. A empatia pela personagem principal é conquistada de imediato, deixando-nos rendidos à sua forma de ser. E Ellen Page faz isto tão bem… Ela é um autêntico furacão em cena: ninguém lhe fica indiferente. Ficaria deliciado com a sua vitória amanhã (e do filme também), mas como tal não deve acontecer, resta-me esperar pelo discurso da stripper Cody.

O único defeito do filme acaba por ser, tal como já referi, a sua duração. Pedia-se mais meia hora. É que fica no ar a ideia que a história não teve o final mais correcto, muita coisa ficou por contar, especialmente no que diz respeito às personagens de Bateman e J.K. Simmons. Ah, e outra coisa: é um crime não se ter dado uma cena conjunta aos, outrora, pai e filho Jason Bateman e Michael Cera!
Filme altamente aconselhável! O feel good movie do ano; o Little Miss Sunshine de 2007/2008! Vão ao cinema e deixem-se conquistar pela Juno MacGuff. Para vos facilitar nessa decisão, aqui fica um pequeno clip do filme, ao som de “Anyone Else But You” dos The Moldy Peaches, cantada pela Ellen Page e pelo Michael Cera.
“Falling Slowly”

Confesso: estou mortinho para ver Once, o musical irlandês mais popular de sempre, digo eu. Apesar de não ser o meu género cinematográfico favorito, não tenho qualquer problemas com este tipo de filmes e o seu buzz fala por si: não só o amigo Markl fala maravilhas da película como Once parece ter conquistado todo o mundo. O filme acompanha o encontro entre um músico e uma imigrante que durante uma semana irão conceber algumas músicas que retratam a sua inesperada história de amor. Tudo isto com Dublin como cenário.
E se a história for tão boa como a música “Falling Slowly”, então é caso para dizer que temos aqui um filme do catano. A canção é a minha favorita, desde já, para arrecadar o Óscar nesta categoria. O “Raise It Up” de August Rush também é agradável, mas não o suficiente para suplantar a outra, já para não falar de que as três cancões de Enchanted são bonitas, mas nada de transcendente, embora “That’s How You” seja a que mais se destacada das três. Claro que a vitória deverá também recair sobre o efeito de cada uma das músicas nos seus filmes, mas à primeira vista, Once parece ser mesmo o mais forte candidato à vitória. Para tirar dúvidas, só mesmo vendo o filme…
Le festin!
Lembram-se quando disse, há uns dias atrás, que ficaria contente com a vitória do Surf’s Up nos Óscares? Bem, continuo a pensar que ficaria contente se isso acontecesse (NOTA MENTAL: nunca substimar filmes com pinguins!), mas o filme não vai ganhar o prémio. Não vai e não pode: Ratatouille é o filme de animação do ano.

O filme sobre um rato que se revela um exímio chefe de cozinha e do rapaz que não tem muito jeito para a coisa é mesmo um dos melhores do ano transacto. Seguindo um pouco a onda de The Incredibles, Brad Bird apresenta um filme de desenhos animados que é mais para o gosto dos graúdos do que para o dos miúdos, embora funcione em ambos os públicos. A única diferença entre os dois projectos da Pixar é que este Ratatouille acaba por ser mais “infantil”, visto ser protagonizado por um sem número de ratos falantes, não caindo no erro, contudo, de pôr animais e humanos a falar directamente uns com os outros ou a colocar as personagens a fazer os números musicais típicos do género.
Sendo uma das comédias mais inteligentes do ano, acho muito difícil a história de Remy e Linguini não ser distinguida no próximo dia 24. Pelo menos o prémio de animação, já que é (quase) impossível passar a perna à qualidade sonora de Transformers (um dos poucos prós a favor desse filme…) e ao argumento de uma tal de Juno. Também ficaria contente com o reconhecimento da (enorme) banda sonora do Michael Giacchino, tal como ficaria satisfeito se a simpática Le festin estivesse na corrida para Melhor Canção do ano…
Se eu me mascarasse no Carnaval…
…este seria o meu disfarçe:

Aí esta uma coisa que nunca percebi. Porque é que nunca ninguém se mascara de Pai Natal no Carnaval? É original (lá está, porque nunca ninguém se lembra disso) e barato (nem vale a pena gastar dinheiro; basta ir ao armário e desencantar a roupa que se usou um mês antes para enganar as criançinhas na noite de 24 de Dezembro). Se eu levasse este dia a sério, era menino para o fazer. Como não é o caso, deixo aqui a dica para quem estiver a ler…
“Come back. Come back to me.”
À primeira vista, Expiação (Atonement, em inglês) parece ser um daqueles filmes de guerra românticos, onde o amor vence todos os obstáculos. Mas não é. Tem algumas características que nos podiam levar a classificá-lo de tal forma, mas Expiação é algo mais do que isso: é um filme sobre o ciúme e a inveja e as consequências dos nossos actos quando nos deixamos levar pela vingança. Esta é a história do filme. A história de Briony e os modos com que ela vai tentar expiar os seus pecados depois de ter destruído a vida da irmã Cecilia e do filho dos empregados Robbie. A história de uma criança que vai passar uma vida inteira carregando a culpa de ter acusado um homem de um crime que não cometeu.

Isto é Expiação. Uma espécie de filho rebelde de O Paciente Inglês e Cold Mountain. E digo filho rebelde porque enquanto que nos outros o amor é o grande protagonista, aqui, e como já foi referido, o ciúme e o sentimento de culpa são os fios condutores à história, em partes distintas da película, que nos deixa presos ao ecrã, mesmo que cheguemos à conclusão de que algumas cenas poderiam ir mais além. O próprio filme poderia ir mais além. E esse acaba por ser o grande calcanhar de Aquiles do filme de Joe Wright (que nunca desilude atrás das câmeras). Apesar de ser uma inovação no seu género, parece que a película sente receio de abordar algumas cenas de maneira mais detalhada e profunda, deixando algumas subtramas um pouco mal exploradas. Isto já para não falar de que o final nos chega de uma forma um tanto precipitada, talvez pela própria duração do filme, que acaba por ser pouca para se contar a história. Culpa, talvez, da adaptação do nosso conterrâneo Christopher Hampton, cujo guião poderia ser (ainda) melhor.
Todavia, isto não faz de Expiação um mau filme. Não é uma obra-prima, e dos 7 Óscares para que está nomeado, deverá ter sorte em algumas categorias técnicas (seria muito estranho ver o filme levar o prémio máximo, dada a concorrência), mas também não é um mau filme: é interessante, com alguns aspectos tremendamente geniais. Para além disso, o elenco não desilude. James MacAvoy provou ser um actor competente, à altura do que lhe era pedido. Keira Knightley (
) para além de linda é talentosíssima. Ah, e também é linda. O papel de Cecilia assente-lhe que nem uma luva, e o único defeito que se pode colocar à presença da actriz no filme foi a promoção do mesmo: Cecilia não é a personagem feminina principal. Briony é. O filme é inteiramente sobre ela, mostrando-nos, de tempos a tempos, os pontos de vista de Robbie e Cecilia. Romola Garai e Vanessa Redgrave conseguem uma interpretação de luxo na pele de Briony em diferentes fases da sua vida, mas acaba por ser a jovem de nome complicado Saiorse Ronan (a sério, alguém, que me diga como é que se lê o primeiro nome da rapariga) que merece distinção, tal não é a complexidade com que abraça a personagem e os seus conflitos morais. Nomeada como Actriz Secundária, Ronan não deverá ter sorte em sagrar-se vencedora, mas é uma das revelações do filme.

Um filme com uma edição espantosa (estou ainda a tentar perceber porque é que falhou esta nomeação) que, embora não tenha o necessário para ser aclamado de filme do ano, será relembrado como um filme ”lindo” (como se já não bastasse ter lá a Keira, é um regalo para a vista, tecnicamente) que poderia ser chamado de filmaço se tivesse tido a coragem de dar o próximo passo.
Pinguins + Surf = “Surf’s Up”
Chamem-me maluco, mas eu adoro este jogo (sim, jogo) de tentar prever quem vai ganhar Óscares e afins. É triste, mas cada um tem a sua pancada e esta é a minha. Assim, e durante estes dias que antecedem aos grandes prémios de Hollywood, é altura de visionar os filmes candidatos. E ontem foi Dia de Surf (ou Surf’s Up, como preferirem). Tendo ficado com a nomeação para Melhor Filme de Animação que, por mim, iria para Os Simpsons e o seu Spider Pig, este Surf’s Up acaba por revelar mais surpresas do que a nomeação por si só: o filme é mesmo uma grande surpresa.

Não esperava ficar tão satisfeito após os curtos mas eficazes 85 minutos de fita. É um salto arriscado no que toca a filmes de animação, adoptando uma postura de documentário tão batida em reality-shows ou até mesmo em The Office, sendo esta uma aposta mais do que ganha. O estilo de filmagem transmite ao filme uma certa sensação de realidade (dentro dos possíveis, afinal é mais um filme com pinguins), que nos entretem de uma maneira tão agradável que as carradas de lições de moral tão clichés neste tipo de filmes quase que são esquecidas. A maneira como são mostradas as sequências de surf imprimem também essa noção do real, deixando o espectador fascinado com as imagens extremamente bem conseguidas pela equipa de produção de Surf’s Up. Aliado a isso, a improvisação do elenco é também um mimo, tendo de se fazer referência ao frango Jon Heder e, principalmente, ao ouriço James Woods.

Tal como Rui Pedro Tendinha escreveu na (infelizmente) extinta Premiere, Surf’s Up é “(…) uma simpática comédia de Verão”. E é mesmo. Tanto, que já ganhou a minha simpatia para noite de 24 de Fevereiro. E embora um certo rato cozinheiro de Paris (ainda não vi Ratatui) tenha uma força digna de O Senhor dos Anéis não nos podemos esquecer de uma coisa: todos os filmes com pinguins (A Marcha dos Pinguins, Happy Feet) nomeados para os Óscares acabaram por vencer a estatueta. Por isso, não me espantaria que os criadores de Cody Maverick & Cia. subissem ao palco. Isto, claro, se chegar a haver uma cerimónia como deve de ser… É bom sonhar, por isso proponho aos membros da Academia que se deixem levar pela (lindíssima) banda sonora do filme.

